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Para uma microfísica do olhar: um passeio com Cesário Verde num bairro moderno da Lisboa de fins do século XIX
Artigo
Edwilson Soares Freire - edwfreire@yahoo.com.br
RESUMO: Este artigo debruça-se sobre a poética de Cesário Verde, pinçando entre seus poemas o belo “Num bairro moderno”, no qual um eu-lírico faz um passeio sensorial pela Lisboa de fins do século XIX. Para explicar a poética peculiar desse autor, adota-se aqui a expressão “microfísica do olhar”, assimilada da teoria de Foucault. Tecendo considerações sobre a distinção entre o realismo de Cesário Verde e aquele vigente em seu tempo, o artigo conclui que a relação entre literatura e época se faz presente de modo inegável na obra deste poeta português.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura Portuguesa, Cesário Verde, Realismo, Poesia do Cotidiano.
RESUMO: Ĉi tiu artikolo koncentras sin sur la poetika verkaro de Cesário Verde (portugalano), pinĉante el liaj poemoj la belan “Num bairro moderno” (Ĉe moderna kvartalo), kie lirika mio faras sensa promenado tra Lisbono je la fino de la 19-a jaracento. Celante ekspliki la apartan poetikan stilo de tiu aŭtoro, ni proponas la esprimo “mikrofísiko de la rigardo”, elprenita de la teorio de Foucault. Post rezonado pri la distingo inter la realismo de Cesário Verde kaj la alia, pli ofta siatempe, la artikolo proponas la konkludon, ke la rilato inter literaturo kaj epoko estas nerefutebla ĉe la verko de tiu poeto portugalano.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura Portuguesa, Cesário Verde, Realismo, Poesia do Cotidiano
Cesário Verde renovou completamente a estilística tradicional da nossa poesia [portuguesa]. (...)
Cesário consegue valorizar poeticamente o vocabulário e o tom de fala... coloquial urbana, embalando o leitor entre a atenção ao pormenor e um abrir de horizontes, entre a sátira e a degradação...
Saraiva e Lopes, 2001.
O poeta português José Joaquim Cesário Verde nasceu em 1855 e faleceu, muito precocemente, em 1886, com apenas 31 anos. Foi obrigado a exercer atividades práticas de comerciante que, segundo Moisés, “colidiam com seu temperamento de sensitivo” (1997, p. 336). Seu amigo Silva Pinto reuniu seus poemas e os publicou sob título de O Livro de Cesário Verde, em 1887.1
Este grande poeta, incompreendido em seu tempo, é considerado pela crítica atual como um “lírico insatisfeito”, um fino escritor que não se contentou com derramamentos românticos ou divagações metafísicas. Para Saraiva e Lopes, ele é “o único poeta do grupo tido como realista que consegue romper, de facto, com a herança romântica” (2001, p. 926). Em sua poética, Cesário Verde procura emocionar o leitor com o cotidiano real da Lisboa de fins do século XIX, captando como poucos a alma da cidade, bem como suas inquietantes antinomias.2
No poema “Num bairro moderno”, escrito em 1877, Cesário Verde fala por meio de um eu-lírico que caminha pelas ruas de um bairro lisboeta moderno, como o título sugere, numa manhã quente de agosto. Os detalhes do cenário citadino e as cenas gritantes dos contrastes sociais presenciados – num exercício que, aqui, chamar-se-á de microfísica do olhar3 – injetam no narrador um turbilhão de sensações, fazendo-o chegar ao trabalho com “tonturas de uma apoplexia” (v. 15). É um poema, tal qual “O sentimento dum ocidental”, como lembra Moisés, que encerra “um lirismo não-amoroso, não panfletário, não metafísico” (1997, p. 341); na verdade um “lirismo do cotidiano citadino”, se for possível essa expressão.
É preciso explicar melhor o uso da expressão microfísica do olhar, usada aqui para caracterizar o realismo da poética de Cesário Verde, uma poética tecida de olhares, detidos e minuciosos, aos elementos reais de uma cidade que desabrochava para a modernidade, como é o caso da Lisboa retratada por este poeta.
Neste sentido, faz-se necessário pontuar a grande diferença entre o realismo de Cesário Verde e o realismo documental ou panorâmico condizente com a estética naturalista da época. O poeta não se detém a retratar tipos curiosos da cidade numa poesia seca, realista pura e simplesmente. Ao contrário, tece sua arte poética por meio de um lirismo daquilo que se vê, mas que ao mesmo tempo está invisível porque não percebido como algo importante, dada sua “trivialidade”.
Dizer isso equivale a admitir que Cesário Verde cultivou um “sentimento do real”, ou seja, apreendeu esse real mediante um tipo peculiar de subjetivismo, não propriamente identificado com o eu, mas com o coletivo. O poeta mesmo confessa isso, em carta, a um amigo: “A mim o que me rodeia é o que me preocupa”.4
A expressão “microfísica do olhar” implica isto: uma capacidade de tornar visível o real, ou seja, comunicar com sensibilidade o que está para além das aparências, para além do olhar apressado e cego do cotidiano. Um olhar que, não obstante óbvio, toca as feridas profundas de uma sociedade excluidora e injusta.
Neste artigo, debruçar-se-á, especificamente, sobre o poema “Num bairro moderno”, um entre tantos repletos de uma atmosfera triste, mas em tudo “diferente tanto da melancolia romântica como do desabusado spleen de Baudelaire. É um sentimento coletivo assumido como pessoal” (Perrone-Moisés, 2005, p. 12); talvez a forma mais bem acabada de empatia. Há, no olhar microfísico de Cesário Verde, uma fusão entre as realidades subjetiva e objetiva, de modo a “formar uma unidade que anula as diferenças de plano visual ou de colocação do indivíduo diante das coisas” (Moisés, 2005, p. 177).
Composto em vinte quintetos, totalizando cem versos, e todo estruturado em decassílabos heróicos, com rimas ABAAB, este poema de Cesário Verde é um, entre tantos, que canta a cidade, suas ruas, seus tipos, suas sensações... Sua vida pulsante. Há fortes ressonâncias em “Num bairro moderno”, como a predominância da vogal aberta “a” sugerindo abundância de luz,5 como numa pintura expressionista, do qual se falará logo adiante. Os decassílabos segmentados em pés iâmbicos e anapestos sugerem, por sua vez, a idéia de movimento progressivo, de marcha, de caminhada, como a que de fato o eu-poemático faz no decorrer da narração.
À parte dessa constituição formal de Cesário Verde, que reflete a preocupação dos realistas em resgatar formas clássicas que os românticos haviam manipulado com extrema liberdade, no poema em vista forma e conteúdo se alinham a uma intenção maior que era escrever um texto de tese, qual seja: uma crítica à sociedade burguesa e seus contrastes sociais. A própria relação que se faz entre os seres humanos e os vegetais, que se falará adiante, reflete a idéia de que todos os seres estão sujeitos às mesmas leis naturais que regem a vida.
O léxico do poema destacado guarda forte relação com o ambiente urbano. Expressões como “casa apalaçada” (v. 2), “rua macadamizada” (v. 5) e “xadrez marmóreo duma escada” (v. 18) são representativas da descrição de um bairro moderno. Todavia, por ainda manter aspectos provincianos e mesmo medievais, a cidade de Lisboa está repleta de elementos próprios ou mais condizentes com o ambiente campestre. Assim, é possível observar que “pelos jardins estancam-se os [raios de sol] nascentes” (v.3), o narrador ouve o canto de um pássaro (v. 87) e observa a luz do sol tal qual alguém no campo, sem a poluição da cidade (vs. 89 e 90).
Por ter um léxico todo especial, o poema “Num bairro moderno” pode ser apreciado como uma espécie de “pintura literária”. Cesário Verde se detém num trabalho artesanal, manipulando a pena como quem pinta um quadro.6 Expressões como “anatomia” (v. 41), “tons e formas” (v. 43) e todo o trabalho de descrever como as frutas e os legumes podiam ser percebidos como partes do corpo humano, num trabalho acurado de humor, são provas dessa arte de “pintura com as palavras” em Cesário Verde. Não é à toa que prevalece em sua poesia uma profusão de recursos literários metafóricos, como a citada alegoria ilusionista relativa às frutas e verduras.
Outrossim, a presença de elementos pictóricos no poema é tão marcante que o próprio narrador se acha surpreendido com as cenas, chegando a exclamar: “que visão de artista!” (v. 31). Assim, os contornos de uma natureza morta e extática (frutas e verduras) ganham “belas proporções carnais” (v. 35) sob a luz do sol, “o intenso colorista” (v. 33).
No poema em estudo, destacam-se algumas metáforas: azeitonas aparecem como “tranças dum cabelo” (v. 48), cachos de uvas são “rosários de olhos” (v. 50) e tomates pulsam como “bons corações” (v. 59). Dependendo do ângulo dos legumes e frutos, vistos pelos olhos humorísticos do narrador, vêem-se “colos, ombros e bocas” (v. 51), o que justificaria a poética de Cesário Verde como um olhar para além do mero olhar. Ou provaria o predomínio de um impressionismo poético tecido verso a verso.
De fato, um impressionismo perpassa todo o poema, numa verdadeira festa dos sentidos. O eu-lírico não apenas vê e descreve cenas como se fossem pinturas, numa predominância de visões, como se disse acima, mas vê-se inundado, ainda, por aromas, sons e sentimentos. Por isso, se detém também a falar dos “fumos de cozinha” que bóiam pela rua (v. 36), das campainhas que tocam frenéticas nas casas (v. 39), da alegria da vendedora lhe agradecendo a ajuda (vs. 72 e 73), etc. A manifestação sensorial é tamanha que ele mesmo a admite, fascinado: “Vi nos legumes carnes tentadoras” (v. 57).
Em toda essa pintura impressionista, destaca-se a presença de uma voz testemunhal, ou seja, uma voz poética subjetiva que faz questão de deixar registrada de que forma a teia de impressões do ambiente urbano, e dos tipos que nele transitam, marcam seus sentidos numa trivial, mas ao mesmo tempo incomum caminhada pela cidade. Essa voz pode ser constatada claramente por elementos gramaticais associados à 1.ª pessoa (pronomes e verbos flexionados) e elementos dêiticos (ângulos sob a perspectiva do narrador). O eu-poemático se abre em confissões: “Eu descia,/ Sem muita pressa, para o meu emprego” (vs. 12 e 13); “E eu, apesar do sol, examinei-a” (v. 21); “E eu recompunha...” (v. 41); etc. Expressões como “lado oposto” (v. 76) e “ao longe” (v. 77) aparecem como dêiticos, só entendidos sob a perspectiva ótica do narrador.
Tudo indica que essa voz testemunhal seria um reflexo da própria voz de Cesário Verde que, segundo Fernando Pessoa, era um gênio, mas um homem deslocado de seu ambiente. Por meio de Alberto Caeiro, Pessoa diz sentir muita pena de Cesário Verde porque ele era “um camponês/ Que andava preso em liberdade pela cidade”. Ou ainda, um caminhante citadino vestido adequadamente, mas como alguém que olha a cidade como “quem olha para árvores”; um andarilho que caminha “a reparar nas flores que há pelos campos” (apud Perrone-Moisés, 2005, p. 12).
Na poética de Cesário Verde, os habitantes da cidade aparecem matizados em vários tons e formas; toda uma tipologia social que vê o mundo se modernizando e Lisboa como que parada no tempo, ingressando penosamente na era industrial (Perrone-Moisés, 2005, p. 13). “Num bairro moderno” arrasta o leitor para a realidade da Lisboa do fenecer do século XIX, “uma grande aldeia ainda não totalmente separada da vida rural”, um lugar onde os indivíduos, pasmados pela modernidade, vivem ainda “as incertezas de seu status e de seu futuro sob a forma da melancolia” (idem, p. 13). Talvez por isso, a voz testemunhal do poema parece triste ou perdida na perplexidade da cidade e de seus peregrinos. Não obstante, o eu-poemático de Cesário Verde tende a “assumir atitudes tidas como prosaicas... [mas que, ao fim, chega em] percepções surpreendentes” (Saraiva e Lopes, 2001, p. 927).
Dentre os peregrinos, esses seres que erram por um bairro de feitura moderna, destaca-se a figura da vendedora de legumes, uma mulher pobre, sofrida, tornada feia pelo ambiente em que vive, injusto e melancólico em suas desigualdades e misérias. Pelo narrador, sabemos que a rapariga recebe apenas “um cobre lívido, oxidado” (v. 29) por algum legume vendido. A figura da moça é descrita de forma subjetiva, de modo a provocar no leitor compaixão pela pobreza e pela humilhação.
Todavia, o eu-lírico não a maltrata como a sociedade; ao contrário, aproxima-se dela “sem desprezo” (v. 66), ajudando-a a desprender do chão um pesado cesto (v. 68). Com isso, Cesário Verde cumpre o seu anseio de realismo e, ao mesmo tempo, tece uma aguda crítica à realidade urbana da Lisboa dos fins do século XIX. Seu viés ideológico se volta contra a sociedade burguesa que gera e perpetua a desigualdade social e a exploração do trabalho humano.
A vendedora é pintada como “rota, pequenina, azafamada” (v. 16), apesar de agradecida (v. 71) e cheia de virtude (v. 74). Aparecem outros tipos no poema em foco, como padeiros enfarinhados (v. 38), numa clara alusão à dura lida de alguns trabalhadores que carregam, envergados, pesados cestos (v. 37).
Na galeria de tipos cesarianos se destaca com nítida agudez uma percepção crítica do gênero feminino. A vendedora de “Num bairro moderno” é um exemplo acabado do objetivo de Cesário Verde de aliar o lirismo à idéia de justiça social. Essa personagem sofre uma série de humilhações e vive cercada de pobreza, mas surpreende o narrador ao se mostrar uma pessoa cheia de força, alegria e plenitude (v. 73), a tal ponto que ele não sabe se isso é resultado de “excesso de virtude” (v. 74) ou de uma “digestão desconhecida” (v. 75). No final do poema, a mulher é descrita de modo diferente, como “pitoresca e audaz” (v. 91), criatura forte de “peito erguido” (v. 92), mostrando uma soberba resultante “duma desgraça alegre” (v. 93). Assim, ela vai caminhando e apregoando a venda de sua “verdura rústica, abundante” (v. 99).
Por fim, a obra de Cesário Verde é prova latente de que há inegável relação entre literatura e época. Cesário foi um poeta com rara sensibilidade para perceber seu tempo como gestor de acentuadas contradições, criticando assim o descaso da sociedade burguesa para com os pobres, produtos diretos das injustiças do sistema. Nesse sentido, os quadros pintados pelo poeta, representantes de sua contemporaneidade, são de um realismo desconcertante que pulsa ainda em nossos dias e grita aos homens hodiernos: “veja o que o Homem é capaz de fazer!”. Esta é uma leitura facilmente identificada na obra de Cesário Verde. 7
Portanto, duas das funções da literatura – sensibilizar e chocar – foram cumpridas de uma vez só pela voz de um poeta ignorado em seu tempo, mas justamente resgatado em nosso, resgatado como alguém que ainda tem uma importante mensagem a passar aos homens, na verdade, aos homens de todos os tempos: “somos assim, mas podemos mudar”. Essa mensagem continua saltando aos olhos quando lemos o legado de Cesário Verde.
Referências bibliográficas
DAUNT, R. Obra poética integral de Cesário Verde (1855-86): organização, apresentação, tábua cronológica e cartas reunidas. São Paulo: Landy, 2006.
FIGUEIREDO, J. P. de. A vida de Cesário Verde: a obra e o homem. Lisboa: Arcádia, 1981.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 23. ed.. São Paulo: Graal, 2007.
LOPES, R. S. Para uma leitura de Cesário Verde. Lisboa: Presença, 2000 (Coleção Textos de Apoio Nova Série, n.º 9).
MACAMBIRA, J. R. Fonologia do português. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Deporto, 1985.
MACEDO, H. Nós: uma leitura de Cesário Verde. Lisboa: Presença, 1999 (Coleção Universidade Hoje, n.º 9).
MOISÉS, M. A literatura portuguesa através dos textos. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
_______ A literatura portuguesa. 33. ed. São Paulo: Cultrix, 2005.
PERRONE-MOISÉS, L. “Apresentação”. In: Seleção de poemas: Cesário Verde. São Paulo: Global, 2005.
SARAIVA, A. J. e LOPES, O. História da literatura portuguesa. 17. ed. Porto: Porto Editora, 2001.
SERRÃO, J. Cesário Verde. Lisboa: Minerva, 1957.
TORRES, A. P. A paleta de Cesário Verde. Lisboa: Caminho, 2003.
Notas
1 Sobre a vida de Cesário Verde, ver as seguintes biografias: Serrão, Joel. Cesário Verde, 1957 e Figueiredo, João Pinto de. A vida de Cesário Verde..., 1981.
2 Para um apanhado geral do contexto histórico e ideológico que respaldou a poética de Cesário Verde, ver: Macedo, Helder. Nós – Uma leitura de Cesário Verde, 1999.
3 Trata-se de uma assimilação da expressão “microfísica do poder”, que intitula um livro do filósofo francês Michel Foucault, reunindo artigos, conferências e palestras proferidas por ele sobre psiquiatria, justiça, sexualidade, Estado, entre outros assuntos. A expressão diz respeito a toda uma malha de relações do poder nas sociedades capitalistas modernas. Ver: Foucault, M. Microfísica do poder, 2007.
4 Para uma leitura detalhada do epistolário de Cesário Verde, ver: Daunt, Obra poética de Cesário Verde..., 2006.
5 Para uma visão mais pormenorizada sobre o uso estilístico de fonemas, ver o capítulo “Fonoestilística” em: Macambira, J. R. Fonologia do português, 1985.
6 Para um aprofundamento na dimensão pictórica da poética de Cesário Verde ver: Torres, Alexandre Pinheiro. A paleta de Cesário Verde, 2003.
7 Para um aprofundamento na rica complexidade dos níveis de leitura da poética de Cesário Verde, ver: Lopes, Rita Sousa. Para uma leitura de Cesário Verde, 2000.
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