redazine.gif (20529 bytes)

ANTOLOGIA POÉTICA DO LEITE JR. | 20050903 | Atualização livre.

 

Abanque-se!

abanque-se.jpg (15269 bytes)

 

ALGUNS POEMAS DO LEITE JR.
Pé no Poema *   | Biologema * | Clipe * | Mineira * | Relógio * | Pão * | Anjos * | Digestão do Príncipe * | Fórmica * | Pastoral * | Biscoito da Sorte * | Seca Verde * | Uma Palavra * | Sabor e Travo * | Ensejo * | Sinal * | Bilaquiana * | Via Láctea * | Esfinge * | Canção de Tempo * | Carena * | O Luar Sorri * | Dessa Sina * | Elegia a Patativa * | Cifragem * | Criatura * | Marinha * | Saltimbanco * | Rosa-dos-Ventos * | Décima Sensitiva *
 

LEITE JR ?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pé no Poema

 

É preciso ter fé na palavra

para pôr a palavra de pé.

É preciso ter palavra

em cada pé do poema.

E o poema vai andar,

correr,

voar.

E a palavra vai dar

pé.

 

 

 

 

 

Biologema

 

 

Essa breve conjectura

Em que o texto se conforma

Nem no tempo se deforma

Se o fixamos na nervura.

 

Toda palavra é futura,

Todo sentido um emblema.

O tempo todo é um teorema

Que na palavra perdura.

 

Espelhada na retina,

A memória se destina

Ao biologema gravado:

 

E as versões do pensamento,

No virtual passatempo,

Codificam o eterno estado.

 

 

 

 

 

 

Clipe

 

A boa idéia é como um clipe, assim,

Entre papéis, arame retorcido.

Ao clipe, o que lhe serve é ter servido;

Da idéia, o que nos serve é ter um fim.

A idéia, se complica, já é ruim;

E a poucos servirá, se contorcida.

Põe-se num clipe a idéia interrompida,

E a idéia aguardará a hora e o dia

De cumprir seu papel e, quem diria,

Pode a idéia ser vida, se servida.

 

 

 

 

 

Mineira

 

Lutar com batatas

Não é nonada não:

É

Colher flor de espuma

Em pedra-sabão.

 

 

 

 

 

Relógio

 

Teu rosto já marca meu peito, meu passo;

Teu toque me faz levantar, recolher;

Tuas cordas me amarram ao que devo fazer,

O feito e o refeito em teu fio refaço;

 

Te tenho, me tens: em meu braço te enlaço;

Te levo, me levas (quem vai se perder?);

Me guias, te guio: teu ser em meu ser

É a bússola certa, meu norte, compasso.

 

Por certo, o sentido da minha existência,

Que o teu mecanismo mediu, computou,

Nas horas, minutos, segundos, refaz-se.

 

Meu ser se confunde na tua cadência;

No peito e no pulso, uma máquina estou:

Mecânica, a vida desfaz-se e renasce.

 

 

 

 

 

 

 

Pão

 

Jogam-se as letras no chão,

E a terra devolve o grão,

Em mágica germinal,

Na ceifa do cereal.

Assim como a espiga brilha,

E o seu remoer polvilha,

O ato em palavra é ação,

E a lavra do lábio é pão.

A voz de quem fala é messe,

E a messe em palavra é prece:

Quem planta o que a voz não tolhe

Rejeita mais que recolhe.

O risco em palavra é arado,

Com seu passo ruminado,

Cavando no texto a fenda

Onde a vida se desvenda.

 

 

 

 

 

Anjos

 

Como rotas borboletas,

De asa invisível, incolor,

Eles usam roupas pretas

Enlutando a própria dor.

 

Diríeis que são tão leves,

Que um pé-de-vento os levou.

Diríeis que são tão breves,

Que um só minuto os matou.

 

Rotos, breves, pé no chão,

Diríeis que nada são,

Posto que são quase nada:

 

Mas, de natureza alada,

Um dia eles partirão

Como anjos em revoada.

 

 

 

 

 

 

Digestão do Príncipe

 

Um baobá nasceu em meu jardim,

Nasceu no meu pomar, no meu quintal!

Meu Deus, como é visível o essencial:

Com banda marcial, mofa de mim.

 

Sorri-me o essencial, sorri carmim.

Aos olhos, é risível e digital,

É luz estroboscópica, é fanal:

Vegetal elefante, drag queen.

 

Em meu jardim, passou uma raposa

Querendo cativar-me, mas, medrosa,

Arisca, se escondia em meu pomar.

 

Enfim, arrisca amar-me em verso e prosa.

Em troca, dou-lhe o essencial – a rosa –

Que o meu poema quer para o jantar.

 

 

 

 

 

Fórmica

 

A fila de formigas vai passando,

E mais parecem homens no andar!

Quem vê diz que elas falam vez em quando,

Mas sobre o que as formigas vão falar?

 

Algumas de vergar vão-se arrastando,

Não sei a que calvário vão chegar...

E outras, bem ao lado, vigiando,

Parecem ao grupamento comandar.

 

Exército de escravos construindo

Pirâmides e túneis lentamente,

Trabalham dia e noite, eternamente.

 

Formigas que de homens vão fingindo,

Insetos que na fila vão seguindo

A mesma trilha, enfim, humanamente.

 

 

 

 

 

Pastoral

 

De mãos suaves, intangível ser,

És nada, és pó, e tudo fabricaste.

És pulso, és pulveráceo fio, engaste

Violáceo da flor do amanhecer.

 

Artífice do caos, tu plasmaste

Do vácuo a luz, da morte o renascer.

A vida é teu vagido, e teu pascer

Brota do chão em cada verde haste.

 

Num balido de muda iridescência,

Segue-te cego o celestino gado,

A ruminar o pasto iluminado.

 

E tudo de teu nada tem a essência:

Se és futuro, és presente e és passado,

A Via Láctea segue o teu cajado.

 

 

 

 

 

Biscoito da Sorte

 

Não posso amar-te:

Prefiro amor-te.

 

 

 

 

 

Seca Verde

 

Tuas lágrimas vertem

Como mentem as águas

Que vêm perder-se

Na seca verde.

Teu sorriso encanta

Quando o embebe o pranto:

Como a lua lume

Numa areia nua.

 

 

 

 

 

Uma Palavra

 

Uma palavra, como planta, cravo,

Com seu cheiro e travo,

Veio, com saudades

E asas,

Saudar-me com sabor de canto: riso,

Quase guizo,

Humor.

 

 

 

 

 

Sabor e Travo

 

Há um tempo para tudo:

Vem o tempo de vento,

Vai o tempo de flor;

Vem o tempo de chuva,

Tempo de maturi.

O sabor do caju

A piroaba gera.

E o travo do caju

É a inevitável espera.

 

 

 

 

 

Ensejo

 

Da janela entrevejo

O voejo da névoa,

Um tempo sem nódoa,

Luar de cereja.

O que em mim flutua

No ar verseja;

O que no ar fulgura

Em mim enseja.

 

 

 

 

 

Sinal

 

O bico do teu seio,

Certa vez encontrei-o,

Talvez por desleixo,

Como um seixo,

Na curva do teu queixo.

 

 

 

 

 

 

Bilaquiana

 

As estrelas,

Só de noite é que podemos vê-las;

Só na canção podemos recolhê-las;

Só na música podemos tangê-las, pastorá-las

E mungi-las,

Vacas siderais.

Sós, bem sei,

Já não podemos sequer ouvi-las.

 

 

 

 

 

Via Láctea

 

Quero fazer seu leito

Lácteo,

Via cândida,

Mente e corpo

Unos,

Planos,

Plenos

De uma eternidade

Pontual,

Estelar,

Quase quasar.

Quero pulsar

E constelar-me em seu

Universo em Vê,

Verso e reverso

De meu Á,

Vice-versa,

Verso, poema,

Colchão de estrelas,

Diadema.

O eme da tua mão

Na minha já treme em ais:

Sêmen,

Semente,

Semema,

Senha de corpos celestiais.

 

 

 

 

 

Esfinge

 

O espelho vê a filha,

E um fio de cabelo

Espera a mão da mãe

Que induz

O espelho da filha:

Fagulha de vida,

Centelha irisada,

Carimbo de luz.

 

 

 

 

 

Canção de Tempo

 

Ouço o tempo roçar nos teus cabelos

Rimas raras que só o tempo traz,

Que não se esvaem da memória mais,

Depois que desenrolam seus novelos.

 

Por mais que eu morra, sempre vou vivê-los

- Esses momentos - , por viver demais.

Por mais que viva, a vida se refaz

No inefável poema dos teus zelos.

 

Por mais que o tempo enrede o labirinto,

E a Górgona me queira lapidar,

Encontrarei no fio do que sinto

 

O rito da tua a voz a versejar,

E a luz de teu olhar do céu retinto:

Imagem do infinito especular.

 

 

 

 

 

Carena

 

O arado singra o seio do papel,

Carena sobre o mar e sob o céu:

E sobre o veio aberto a sementeira

Escreve a poesia verdadeira.

 

E, mesmo que ele seja digitado,

O verso ainda assim é semeado.

Ainda que no espaço virtual,

A poesia é magia, é ritual.

 

Ainda que na tela cintilante,

Mais brilho tem o verso flamejante.

Embora a Internet o embarace,

 

Navega o verso livre entre correntes:

Unindo os desunidos continentes,

Ulisses volta a Ítaca em disfarce.

 

 

 

 

 

O Luar Sorri

 

O luar me sorri um riso ruim,

Um riso de felina insanidade;

Ou será que disfarça a propriedade

Esse luar de chino mandarim?

 

O luar me sorri, e penso assim:

O que quer o luar nesta cidade?

Do Oriente me traz a claridade

Que vem luzir com seu sutil marfim...

 

Felino mardarim do firmamento,

Retorna ao Oriente, donde vieste,

Retorna ao oriental pouso celeste.

 

Não te sei decifrar o claro intento:

Talvez porque te falte o ideograma,

Talvez porque me esfrie a tua chama.

 

 

 

 

 

Dessa Sina

 

Eu não sei se é de dor que a gente canta;

Também não se é de amor que a gente geme.

Sei que há dia em que o barco perde o leme,

Pois se perde no mar que se agiganta:

Tempestade só tem quem vento planta.

Dor e amor, qual dos dois mais assassina?

O amor cega, e a dor tanto alucina;

Quando juntos, são fel e mar salgado:

É perdido quem mais ter procurado

Entender o sentido dessa sina.

 

 

 

 

 

Elegia a Patativa

 

Patativa, no céu foste morar:

Cá na terra o teu canto emudeceu.

Canta lá, Patativa, e canto eu

O silêncio que está no teu lugar.

 

Nos ecos do sertão, ouço aboiar

Na memória do povo um canto teu;

Tua triste partida aconteceu:

Patativa, era a hora de arribar...

 

Se cá na terra o canto, que hoje chora,

Comovia a celeste habitação,

Imagino, poeta, como agora

 

Ressoará tua canção de outrora

Lá do infinito sobre o teu sertão,

Como chuva entre o sol da nova aurora.

 

 

 

 

 

Cifragem

 

Tuas cifras traduzem minha vida:

Minha vida é somar e dividir.

Se especulo, teu espelho vem luzir

Em meus olhos, na imagem refletida,

A fração desta alma dividida.

Nego o ócio e eu teu seio negocio;

Não sacio teu sexo nem teu cio...

Já computo e compito bestialmente,

Reifico meu ser e minha mente:

Coisifico-me e em cédula esvazio.

 

 

 

 

 

Criatura

 

Sou redoma de vidro e de metal,

Onde escondes teu rosto e presunção.

Nascido de tua pressa, o coração

Me negaste no plano original,

E em meu sangue injetaste um gás letal.

Minha estrada é de cruzes ladeada:

Tua cruz corta a minha encruzilhada.

Ingrato ao criador, sou criatura,

O monstro que montaste, a viatura

– Que leva o criador ou é levada?

 

 

 

 

 

Marinha

 

O sentido do ser está no mar

Quando os deltas de seios bojudos

Movem os barcos dos ventos manteúdos.

O sentido, esse véu, perpassa o ar

E se cose com a linha limiar;

Vence o mar e digere a tempestade;

Sorve o abismo – a abissal salinidade.

O sentido do ser é um destino:

Vem no sopro da praia matutino

E se esvai entre os lábios com saudade.

 

 

 

 

 

Saltimbanco

 

Uns versos tristes vez em quando faço;

Uns versos tristes faço quando em vez.

Nem sempre é disponível a insensatez,

Nem sempre o picadeiro é do palhaço.

Há dias de trapézio, e o fio de aço

Da corda bamba baboleia manco;

Há dias de mostrar-se frio e franco:

De artístico cansaço, há sempre o dia.

É quando na platéia se esvazia

A poesia de um saltimbanco.

 

 

 

 

 

Rosa-dos-Ventos

 

O meu corpo em teu corpo se presume,

Doce gozo que em sal se purifica.

Quando abres teu mar, minha alma fica

Na praia, onde o tempo se resume.

E vai meu corpo, barco, vela e vento,

Teu oceano vai varando lento.

Dos ventos, colho a rosa e a aragem:

Toda rota do mar tem teu destino,

Todo senso mareja em desatino

– No meu mastro, eu hasteio a tua imagem.

 

 

 

 

 

 

Décima Sensitiva

 

Reluz a cor no toque e o tato em cor;

Perdura a cor no aroma e o aroma em tato;

Traduz-se, como a luz faz o retrato

Do ser, sem substância e sem odor;

Presume-se na foto o real calor;

Confunde-se na imagem o próprio fato;

E, nessa imagem feita, o inventor

Talvez não faça mesmo diferença:

Do ser ao parecer, só resta a crença

De ver, ouvir, tocar, sentir sabor.

 

leitejr@unifor.br